Mulher-Maravilha | Quando a mensagem é maior que o filme

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Nos últimos anos temos visto um grande número de histórias em quadrinhos ganhando versões cinematográficas. Os filmes costumam variar em suas temáticas – alguém se veste de morcego, outro que é um alienígena, um que usa armaduras tecnológicas, enfim -, mas existe um elemento que se mantém comum na maioria esmagadora deles: são filmes sobre homens, feitos por homens. Nesse sentido, Mulher-Maravilha foge do normativismo da indústria, apresentando uma protagonista forte e contando com a diretora Patty Jenkins por trás das câmeras. Mais que um filme, Mulher-Maravilha é um passo importante em busca por mais representatividade nas telas de Cinema.

O filme é a história de origem de Diana Prince (Gal Gadot), princesa que, após viver toda sua vida entre guerreiras amazonas na ilha de Temiscira, decide ir até o mundo dos humanos para pôr um fim na Primeira Guerra Mundial. Gadot está muito bem no papel da personagem-título. A atriz, que fez carreira em Hollywood com papéis de coadjuvante, consegue liderar o filme com muita graça e confiança, mesmo nos momentos de maior fragilidade da personagem. A performance de Gadot se mostra competente tanto em termos de vigor físico quanto em diálogos emocionais e até em pequenas doses de humor. O jeito doce com que ela elogia o trabalho do sorveteiro na estação de trem é tão marcante quanto vê-la em ação nos campos de batalha, por exemplo. E a facilidade com que a atriz vai de cenas mais humorísticas – como aquela que a traz provando roupas mais “adequadas” – à cenas de confronto através do diálogo – como os vários momentos em que ela, corretamente indignada, contesta padrões de comportamento da sociedade -, serve para comprovar que Gadot está sim à altura da responsabilidade que o papel exige.

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Mulher-Maravilha pertence a Gadot; o longa é completamente dela. Ainda assim, o roteiro escrito por Allan Heinberg consegue espaço para fazer brilhar alguns de seus coadjuvantes. Steve Trevor (Chris Pine) é um homem de sua época  aberto às possibilidades fantásticas representadas pela protagonista, enquanto Sameer (Said Taghmaoui) e Charlie (Ewen Bremner), mesmo sendo personagens menores, conseguem se destacar de maneira positiva graças à performance na medida certa dos seus respectivos intérpretes. E também preciso mencionar a presença de Robin Wright como Antíope, tia de Diana – ela consegue passar toda a experiência e força da amazona apenas com o olhar. Já o destaque negativo fica por conta do ator Danny Huston, que apresenta seu Ludendorff apenas como uma variante do que já havia feito no péssimo X-Men Origens: Wolverine.

Heinberg fez o que pôde com o material que lhe foi dado, mas o resultado final tem a qualidade claramente comprometida por se tratar de uma produção que, ao mesmo tempo, é um prelúdio de Batman vs Superman, um filme de origem da Mulher-Maravilha e parte integrante do universo compartilhado da DC Comics. Por já termos visto a personagem em BvS, já sabemos de antemão que ela é capaz de muito mais do que vemos em tela; e por Mulher-Maravilha se passar no mesmo mundo que outros filmes, também já sabemos que os perigos que Diana enfrenta aqui não são grande coisa, afinal, no fim do ano ela vai estar em Liga da Justiça lutando contra um vilão maior e mais forte. O que sobra é uma história de origem bem básica, mas que consegue brilhar principalmente graças ao esforço da equipe realizadora.

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Além de Gadot, outra personalidade muito marcante no filme é o de sua diretora. Como uma das poucas cineastas mulheres em Hollywood trabalhando num projeto de grande orçamento e divulgação, Jenkins sabe a oportunidade que tem e aproveita para mandar mensagens muito pertinentes contra o machismo no Cinema, e, por extensão, em nossa sociedade como um todo. E isso é ótimo. O Cinema, como a arte plural que sempre foi, precisa dar espaço a pontos de vista mais inclusivos, então é bom ver esse tipo de debate ganhando cada vez mais força também dentro das estruturas do Cinema blockbuster. Mas nem só de crítica social vive Mulher-Maravilha, e Jenkins demonstra aqui ter um olho muito bom para a composição de quadros. Essa qualidade fica mais evidente durante as sequências de ação, nas quais a cineasta utiliza técnicas de aceleração e desaceleração de imagens tais quais seu companheiro de estúdio Zack Snyder fez em 300. Ela sabe onde colocar a câmera para permitir que o espectador acompanhe as sequências com clareza, mas, ainda assim, a utilização de planos mais longos faz falta.

Outro tropeço de Jenkins fica por conta da retratação exageradamente comedida da Primeira Guerra. Esse problema fica bem óbvio no momento em que, ao se aproximar do campo de batalha, Diana presencia os horrores que a guerra causa nas pessoas inocentes. O que deveria ser uma cena de impacto para a protagonista e para nós, os espectadores, funciona somente para ela, graças à maneira distante e impessoal com que a diretora decidiu filmar. O deslize causa uma desconexão momentânea entre público e heroína, algo perigoso num longa que depende tanto desse elo para funcionar.

Wonder-Woman--Gadot

Mulher-Maravilha é uma vitória para os realizadores, para o estúdio e para o público. A equipe, principalmente Jenkins, merece aplausos por pegar um roteiro com uma narrativa bem básica e transformá-lo num filme que tem sua individualidade bem definida – o que é bom para o estúdio, que estava desde 2013 tentando fazer uma adaptação de HQ que fosse mais do que “mais ou menos”. E o público ganha mais um belo exemplo de como o Cinema pode ser uma arte mais diversa e inclusiva.

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