Logan | Ainda há tempo

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É bastante claro perceber como, atualmente, a grande maioria dos filmes de super-herói  dedica mais tempo a servir de trampolim para futuras produções do que em ser, de fato, um bom filme. O que é uma pena, na verdade, pois os quadrinhos são uma mídia recheada de bons personagens apenas esperando uma oportunidade de pular para a tela grande. Wolverine (Hugh Jackman) é um dos que estão nesse caminho há mais tempo, tendo sua versão em carne-e-osso inaugurada no Cinema com X-Men: O Filme. Agora, mais de uma década e meia depois, é chegada a hora de Jackman dar adeus ao personagem. E a despedida, apesar de alguns problemas, é o melhor tratamento cinematográfico que o mutante já teve.

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Logan se passa em 2029. O protagonista-título vive praticamente isolado da sociedade, dedicando sua existência cuidar de Charles Xavier (Patrick Stewart), seu antigo mentor que, devido à idade avançada, sofre com severos problemas mentais. Logo de início o filme consegue criar uma bem vinda individualidade em relação aos outros longas da franquia à qual faz parte: há um misto de desesperança, tristeza e cansaço no ar desde a primeira cena. O fator da violência também há de ser observado. Esse é o primeiro filme da franquia (com exceção de Deadpool) a receber uma classificação indicativa para maiores de 16 anos no Brasil. Isso se traduz em cenas de ação mais fortes, com membros corporais alheios sendo mutilados aos montes – algo que nos permite enxergar o mundo como o próprio Logan enxerga, criando uma identificação maior do público com o personagem.

E falando em personagem, a caracterização de Logan neste filme é a melhor possível. Finalmente sentindo o peso da idade após quase  dois séculos de vida, o protagonista não apresenta mais o vigor observado em suas aparições anteriores. Agora Logan manca ao andar, precisa de óculos para ler e apresenta diversos machucados e cicatrizes pelo corpo, tudo isso indicando que seu famoso fator de cura não funciona mais como antes. Para que essa mudança do personagem pareça convincente, a atuação de Jackman é deveras importante – e o ator jamais deixa a desejar, entregando aqui uma das performances mais significativas de sua carreira.

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Aliás, elogiar Jackman deixando de lado a atuação dos seus coadjuvantes seria injustiça. Stewart, em sua quinta aparição (descontando suas pontas em X-Men Origens: Wolverine e Wolverine: Imortal) como Charles Xavier, também entrega aqui uma interpretação digna de nota. Assim como acontece com seu companheiro de tela, o trabalho de Stewart em Logan se torna ainda mais impressionante quando posto em perspectiva com as outras vezes em que o ator encarnou o mentor do X-Men. Sai de cena o conhecido professor centrado e de aspecto sempre sereno para dar lugar à sua versão debilitada pela idade e com problemas de saúde, mas que ainda mantém acesa uma pequena chama de esperança representada por Laura (Dafne Keen), a maior surpresa do filme. Sendo a força motora da trama, Laura é uma criança mutante que depende Xavier e Logan para sobreviver – e a atriz mirim consegue entregar uma performance muito confiante, ainda mais para alguém de tão pouca idade.

Os mesmos elogios, porém, não podem ser feitos aos vilões do filme. Como não pretendo entrar em spoilers nessa crítica, vou me concentrar apenas em Pierce (Boyd Holbrook). E, bom, ele está bem ruim. Desde sua primeira aparição, fica clara a intenção do filme em torná-lo em um personagem ameaçador – objetivo esse que jamais é alcançado. Uma pena, pois acompanho o trabalho do ator em Narcos e posso afirmar que, na série, ele desempenha muito bem seu papel. Por outro lado, o tom de ameaça consegue ser transmitido de maneira eficiente pelo design de som, que investe em barulhos diegéticos profundos que prenunciam a chegada do perigo.

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O roteiro, escrito por Scott Frank, James Mangold e Michael Green, entrega uma história numa escala muito mais contida e pessoal do que estamos acostumados a ver em filmes de super herói. Até as cenas de ação são beneficiadas por essa escolha, pois se tornam momentos em que a carga mais íntima do filme como um todo faz com que nos preocupemos mais com os personagens. A trama apresenta alguns engasgos, principalmente durante o segundo ato – os roteiristas tiveram a cara de pau de repetir o mesmo plot device em duas sequências consecutivas -, mas no geral o resultado é positivo, principalmente por conta da já mencionada entrega dos atores aos seus personagens. Como diretor, Mangold faz um trabalho competente, equilibrando bem as cenas viscerais com as de escala mais pessoal – e ainda assim, quando saí do cinema, fiquei pensando em como o resultado poderia ter sido ainda impactante nas mãos de um realizador mais autoral.

Logan é um ponto fora da curva em termos de filmes de super heróis, e num bom sentido. É uma produção que consegue ser, ao mesmo tempo, um bom estudo de personagem e um dos melhores filmes da franquia blockbuster na qual está inserido.

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