Redemoinho | O universo de um microcosmo

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É comum, quando se viaja Brasil adentro, passar rapidamente por pequenas comunidades. Cada uma delas tem suas próprias histórias, suas próprias tristezas, mas, para quem segue passagem, esses lugares não passam de simples borrões. Ficam para trás, esquecidos tão rapidamente que o cérebro nem se incomoda de registrar na memória. Redemoinho se passa numa comunidade como essa.

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Em Cataguases, no interior de Minas Gerais, Luzimar (Irandhir Santos) trabalha numa fábrica de tecelagem enquanto sua esposa, Toninha (Dira Paes), faz os preparativos da ceia de Natal. É na volta para casa que Luzimar encontra Gildo (Júlio Andrade), um amigo de infância que retorna à cidade depois de muito tempo. À medida em que eles vão tomando cerveja e colocando o papo em dia, vamos aos poucos descobrindo a densa (e triste) história que aquele local carrega. Gildo, um metido a rico que nunca foi, tem o péssimo costume de querer tudo imediatamente, sem se importar com as pessoas ao seu redor. Luzimar é o oposto: costuma fazer a vontade dos outros sem pensar muito em como isso pode lhe afetar.

O diretor José Luiz Villamarim, egresso da TV, comanda com bastante firmeza seu primeiro longa-metragem. Planos firmes e pouco movimento de câmera são as abordagens escolhidas por ele para contar a história de Redemoinho. O filme é carregado de diálogos, e Villamarim decide filmá-los em longos planos, sem cortes – uma estratégia que se revela acertada, pois são raros os momentos que parecem se “arrastar”. No geral, as cenas fluem muito bem, apresentando elementos que conseguem manter o espectador interessado. Talvez a minha favorita seja o diálogo entre Luzimar e Gildo na ponte, quando os dois já estão bem alcoolizados. Um belo trabalho de direção combinado com ótimas atuações de Irandhir e Andrade.

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Villamarim também demonstra um cuidado delicado na composição dos seus quadros, criando belas imagens junto com o diretor de fotografia Walter Carvalho. Seus personagens são frequentemente posicionados no fundo dos cenários; Toninha, em vários momentos, é vista “encurralada” pelos vãos de portas, ou então enquadrada através de grades; e, em determinada cena, vemos Luzimar falar ao telefone através da brecha de um portão. O interessante é que em momento nenhum esse isolamento é explicitamente trazido à tona pelo roteiro de George Moura, o que demonstra a maturidade dos cineastas com a arte e com a história que está sendo contada. O visual se une ao roteiro de forma singular para fazer cinema de qualidade.

Os poucos problemas que Redemoinho tem são pontuais. Como já mencionei, por melhor que seja o roteiro de Moura, alguns momentos realmente duram mais do que deveriam, fazendo com que o espectador perceba em que direção determinada cena se encaminha muito antes do seu fim. Outro problema deixa bem claras as origens televisivas dos realizadores do filme: personagens falando sozinhos. Esse recurso, infelizmente ainda muito comum na teledramaturgia brasileira, serve para que os personagens deixem claro para o espectador o que estão sentindo e/ou pensando. Algo desnecessário no longa, ainda mais com atores tão bons em tela.

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É sempre um prazer ver um filme bom no cinema. Quando o filme é brasileiro, então, a sensação é melhor ainda. Os poucos problemas apresentados aqui não são suficientes para tirar o brilho dessa bela obra dirigida por Villamarim. Que Redemoinho seja um bom presságio para os filmes nacionais que vão ganhar as salas do cinema este ano.

Você também pode gostar de ler sobre Os 15 anos de O Senhor dos Anéis no cinema e sobre Os curtas de Stanley Kubrick. O Mente Sem Fio está no Facebook e você pode trocar ideia comigo no Twitter.

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