Ponte Aérea | Convenções antigas atrapalham roteiro com aspirações atuais

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Dirigido por Júlia Rezende, o filme Ponte Aérea trata do relacionamento entre Bruno (Caio Blat) e Amanda (Letícia Colin), dois jovens adultos que se conhecem após o vôo que iriam pegar ter sido cancelado. Ele é um artista que mora no Rio de Janeiro, vive um dia de cada vez sem pensar muito no futuro. Ela é uma diretora de arte de São Paulo, tem uma vida metódica e cheia de responsabilidades. A distância e as diferenças de personalidade garantem o combustível da história, que acerta ao não retratar a relação entre o casal protagonista como um romance típico. Esse, aliás, é o ponto forte do longa metragem: o que cria o elo entre Bruno e Amanda é a válvula de escape que um representa para o outro – fazendo com que o filme saia do terreno água com açúcar que infecta grande parte das produções brasileiras do gênero.

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O roteiro assinado por Rezende e L.G. Bayão acerta ao criar um necessário background para seus protagonistas. Dessa maneira, Bruno não é só um cara que corre atrás da mulher que gosta – ele também é um filho preocupado com a saúde do pai que o abandonou ainda criança e as consequências que isso representa. Amanda também não pode deixar seus afazeres de lado só por causa da presença de Bruno em sua vida: ela assume um cargo elevado dentro da empresa onde trabalha e precisa lidar com as demandas (e estresses) extras dessa escolha.

Além de ser um bom estudo de personagens durante boa parte dos seus 100 minutos de duração, Ponte Aérea é um retrato da geração que cresceu com o desenvolvimento das tecnologias pessoais – aposto que na adolescência os personagens faziam uso de ferramentas como ICQ e MSN para se comunicar com amigos distantes. São duas pessoas que fizeram parte da transformação do mundo num lugar mais impessoal, mais distante, onde para fazer contato bastar um “curtir” no Facebook ou virar seguidor de alguém no Instagram. Qualquer tentativa de aprofundamento pode resultar em frustração.

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Contando com personagens tão interessantes, é realmente uma pena que Ponte Aérea não tenha contado com uma equipe mais competente. Como diretora, Rezende investe em establishing shots constantes que em nada acrescentam à produção, servindo apenas para ofender a inteligência do espectador. A direção de arte opta pela solução mais óbvia possível ao mostrar o quarto de Amanda completamente branco. Já na cena que mostra o dia seguinte a uma festa, alguém achou que bastaria espalhar umas garrafas vazias de cerveja pelo cenário (todas em pé). É um erro persistente no cinema produzido no eixo RJ-SP: achar que a estrutura utilizada em novelas pode ser reaproveitada para fazer cinema.

Mas os maiores problemas do filme se encontram em seu terço final. O roteiro se entrega a clichês batidíssimos das piores comédias românticas, como coincidências impossíveis e desentendimentos que poderiam ser resolvidos em uma curta troca de palavras. Claramente faltou tempo para desenvolver melhor essa importante parte do filme. Isso prejudica o andamento da história e também desvaloriza o empenho que Blat e Colin depositam em seus personagens, num triste (e com certeza acidental) reflexo do tema que o longa procura retratar.

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