O Destino de Júpiter | Um ponto baixo na carreira dos Wachowski

destinodejupiterposterComo surge um clássico? Como o cinema prova, às vezes acontece nas condições mais improváveis possíveis. Os irmãos Andy e Lana Wachowski tinham apenas o thriller Ligadas Pelo Desejo no currículo antes de desenvolver o projeto que mais tarde se tornaria Matrix – filme que acabou se tornando um verdadeiro clássico contemporâneo do cinema. E ficou por isso mesmo. Apesar de terem desenvolvido alguns trabalhos interessantes (gosto bastante de Speed Racer e A Viagem), os irmãos nunca mais conseguiram realizar algo tão refinado quanto o filme de 1999. O Destino de Júpiter é a prova mais recente disso: cheio de conceitos mal desenvolvidos, a produção marca o ponto mais baixo na carreira dos diretores desde o estouro na virada do século. Antes considerados inovadores, hoje os Wachowski se tornaram um exemplo de como não fazer cinema autoral dentro de Hollywood.

A história gira em torno de Júpiter Jones (Mila Kunis), uma jovem que cresceu ouvindo da mãe que estava destinada a fazer grandes coisas – algo que a própria Júpiter passou a duvidar depois de tanto tempo lavando banheiros alheios. Mas a vida de Júpiter muda completamente quando, ao sofrer uma tentativa de assassinato, ela é salva pelo ex-militar extraterrestre Caine Wise (Channing Tatum) e descobre um mundo muito além do que sua realidade a permitia enxergar. Criticar essa sinopse por ser parecida com Matrix seria fácil e também injusto: o que temos aqui é uma aplicação da Jornada do Herói, conceito aplicado em inúmeros outros filmes. O problema é que em O Destino de Júpiter, produção escrita e dirigida pelos Wachowski, o conceito é aplicado de maneira pobre e incompleta.

Júpiter é uma personagem chata e desinteressante, que não passa por nenhum arco de evolução significativo ao longo da trama. Ela passa boa parte das duas horas de filme sendo arrastada de um lado para o outro pelos outros personagens sem demonstrar a mínima vontade própria. Perdi a conta do número de vezes que Júpiter é resgatada sempre no último segundo pelo personagem de Tatum. Isso é ruim pois 1) deixa o filme repleto de momentos de falso perigo, o que acaba com qualquer senso de ameaça real e 2) torna Júpiter completamente dependente de Caine, o que chega a ser uma afronta em tempos de personagens femininas jovens e fortes no cinema como Katniss Everdeen e Beatrice Prior. Júpiter não aparenta ter vontade própria até bem tarde no filme, avançando na história quase que por pura inércia.

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Fica clara a intenção dos Wachowski em cultivar um novo universo ficcional com O Destino de Júpiter, tal qual George Lucas fez com Star Wars e os próprios Wachowski com Matrix (que rendeu jogos eletrônicos, histórias em quadrinhos e animações). Uma série de cenas e pequenos diálogos faz referência a alguns acontecimentos que não estão diretamente relacionados à trama principal – e se alguns desses momentos se revelam inspirados, muitos deles poderiam ter sido cortados durante a montagem do filme sem qualquer prejuízo ao resultado final. O melhor exemplo é a sequência com os trâmites burocráticos. É engraçadinha? Bem pouco. É relevante para a trama de alguma maneira, por menor que seja? Não.

O fraco empenho aplicado no desenvolvimento do roteiro do filme também se reflete na direção. Nada daquela direção enérgica da trilogia Matrix e Speed Racer está presente aqui – algo que seria importante pois estamos falando de um produção hollywoodiana repleta de cenas de ação. Em vez disso temos uma câmera que não sabe exatamente o que filmar em diversos momentos. Até o antológico efeito da câmera lenta, que a dupla aplicou com esmero em outros filmes, aqui é utilizado de forma bastante rasteira (me lembrou até os piores momentos de Zack Snyder). O que salva essas sequências é a trilha sonora do sempre competente Michael Giacchino.

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O ponto positivo do filme está em seus visuais – pelo menos isso os Wachowski nunca esqueceram como fazer bem. Por mais que eu goste do visual realista empregado em produções como Gravidade e Interestelar, um pouco de variação é sempre algo bem vindo e O Destino de Júpiter não deixa a desejar nesse quesito. Aquele ambiente asséptico, característico de filmes no espaço, sai de cena e dá lugar a uma harmonia de cores bastante variada. O design das naves também foge do convencional, com estruturas que lembram versões elegantes das surradas naves da trilogia Matrix.

No fim das contas, O Destino de Júpiter não passa de um emaranhado de ideias (em sua maioria ruins). As boas ideias que restam são mal executadas devido à grande quantidade de material que os irmãos Wachowski tentam encaixar no longa. Falando de uma maneira que os irmãos entendem bem, esse mais novo filme deles é uma verdadeira falha na Matrix.

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