Caminhos da Floresta | Filme é prejudicado pelo excesso de fragmentação

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Era uma vez um padeiro (James Corden) e sua esposa (Emily Blunt). O casal queria muito ter um filho, mas nunca conseguia. Até que um dia uma bruxa (Maryl Streep) aparece com a proposta de tornar possível a gravidez do casal, desde que eles consigam quatro itens completamente arbitrários em três dias (um estabelecimento também arbitrário). É assim que tem início Caminhos da Floresta, problemático filme que mistura vários contos de fadas sem no entanto apresentar um personagem que seja minimamente interessante.

Cinderela (Anna Kendrick), Chapeuzinho Vermelho (Lilla Crawford), Rapunzel (Mackenzie Mauzy) e todos os seus personagens adjacentes marcam presença nesta verdadeira salada mista cinematográfica. São tantos personagens e tantas situações que o roteirista James Lapine – co-autor do musical no qual este filme se baseia – não conseguiu dar conta. A “solução” que ele arranjou foi abordar apenas de leve os dramas de cada personagem, o que se revela um erro grave: ao não se preocupar em criar envolvimento do espectador, a história se desenvolve a um passo arrastado e as duas horas de filme parecem se multiplicar.

Caminhos da Floresta é um emaranhado de personagens e ideias que nunca realmente se encaixam. É tradicional que em contos de fadas vejamos personagens se comportando de maneira irreal, mas este filme vai além dos limites do aceitável. Uma coisa e acompanhar uma história, outra é assistir a uma produção de Hollywood onde todos os personagens parecem ter graves problemas mentais. Chego a me perguntar como a raça humana conseguiu evitar a extinção e chegar até a época em que o filme se passa. É sério mesmo que a Chapeuzinho não consegue diferenciar a própria avó de um lobisomem (Johnny Depp) vestido como sua avó? Então espera, o Príncipe Encantado (Chris Pine) à cavalo realmente não consegue alcançar Cinderela correndo de salto alto? E esse mesmo príncipe é tão cego ao ponto de não reconhecer Cinderela sem o vestido de gala? E esses são só alguns exemplos. É licença poética demais para mim.

into the woods johnny depp

Aliás, todo o trecho da Chapeuzinho Vermelho poderia ter sido cortado do filme sem maiores problemas, já que serve apenas para que Johnny Depp adicione mais um personagem excêntrico à sua coleção. A maior parte da participação de Depp compreende uma canção altamente pedófila para Chapeuzinho – algo totalmente gratuito pois o Lobo pretende comê-la no sentido literal da palavra, assim como no conto original. A história da Chapeuzinho é resolvida muito antes das outras, e por isso a personagem fica “solta” durante grande parte da projeção, sem ter o que fazer ou para onde ir. Se pelo menos a atuação de Lilla Crawford ajudasse, tudo bem – mas nem isso.

Para um filme chamado Caminhos da Floresta, a floresta em si é um ambiente bem sem vida. A impressão é que a direção de arte simplesmente resolveu fazer um modelo único de árvore e aplicar o “copiar e colar” na impressora 3D. Os personagens parecem estar sempre muito próximos uns dos outros, nunca é criada uma boa noção geográfica do lugar. É quase maldade manter os espectadores presos num ambiente sem graça desses durante quase duas horas. Pior ainda: as chances que o filme tem de sair a floresta não são aproveitadas, deixando os espectadores apenas na vontade – vemos João (Daniel Huttlestone) subindo e descendo o pé de feijão, mas nunca o que tem lá em cima; também vemos Cinderela saindo do castelo do príncipe mais de uma vez, mas não é permitido ver o ambiente por dentro. A escolha, que pode funcionar bem na peça da Broadway, é mais um dos pontos negativos da versão cinematográfica.

jack into the woods

E quem comanda toda essa bagunça – ou pelo menos tenta – é Rob Marshall. Aparentemente, o diretor ficou tão maravilhado com o que viu em cena que esqueceu de apontar a câmera para onde deveria. Se nas cenas mais pausadas ele até consegue manter o equilíbrio, nas mais tensas ele se descontrola de tal maneira que fica difícil saber o que está acontecendo na tela. Esse descontrole fica aparente também nas cenas com Meryl Streep (que apesar de coadjuvante é o grande destaque da produção), chegando inclusive a prejudicar a apreciação de sua performance. A atuação dela claramente é a melhor do filme, mais por culpa do fraco elenco que por esforço próprio – só a presença de Streep na tela faz boa parte do trabalho.

Olhando de fora, Caminhos da Floresta parecia de fato uma aposta certa da Disney. Um filme de contos de fadas, com músicas e um grande elenco para dar suporte. Mas o resultado é uma produção bagunçada e sem norte, que não encontra sua identidade entre a câmera torta do diretor, as demandas do executivos do estúdio e a fidelidade ao material original.

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