O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos | Quando a inconsistência vira regra

hobbit3poster

Além de marcar o retorno da Terra Média à tela grande, a trilogia O Hobbit surgiu com a proposta de trazer uma nova abordagem ao universo retratado no cinema anteriormente com a Trilogia do Anel. Ficaria de lado aquele clima denso para dar lugar a uma áurea mais leve, condizente com o material de origem (Tolkien escreveu O Hobbit como uma aventura para seus filhos). Na prática, o que aconteceu foi bem diferente.

A transição para a tela grande aconteceu de maneira problemática: em Uma Jornada Inesperada vimos prevalecer a leveza do enredo como foi originalmente pretendido; apesar de seus defeitos, o filme funciona. No ano seguinte, A Desolação de Smaug mostrou-se uma produção sonolenta e sem rumo. Para o último filme, destrambelharam tudo e mudaram até o título – do singelo e cheio de significado Lá e de Volta Outra Vez para o exagerado e marqueteiro A Batalha dos Cinco Exércitos. E como retrato dessa mudança, o filme se concentra muito mais em exibir guerra do que em desenvolver uma história interessante.

Nesta última parte da trilogia, fica claro que o desenvolvimento de personagem foi prejudicado em prol da tal batalha. E quando o desenvolvimento enfim acontece, surge forçado: a amizade que Thorin (Richard Armitage) diz ter por Bilbo (Martin Freeman) nunca é mostrada na tela, e o drama romântico entre o anão Kili (Aidan Turner) e a elfa Tauriel (Evangeline Lilly) passa longe de ser cativante. O número absurdo de personagens também não ajuda – a maioria dos 13 anões da comitiva não faz nada de útil durante os 144 minutos de projeção -, e os roteiristas ainda fizeram questão de incluir participações especiais de personagens famosos da trilogia original. Por mais que seja interessante ver Saruman (Christopher Lee) lutando ou Legolas (Orlando Bloom) cheio de malabarismos, fica a impressão de que foi necessário “resgatar” personagens de Senhor dos Anéis para conferir qualidade à trilogia Hobbit.

Continuando o desfile de personagens desinteressantes, a Batalha dos Cinco Exércitos traz de volta o fraco núcleo humano. Se os conflitos da pequena Laketown já eram chatos de se acompanhar no segundo filme, a situação piora neste último. Acompanhamos Bard (Luke Evans), que assume o papel de líder de uma cidade devastada pelo fogo do dragão Smaug (voz de Benedict Cumberbatch). O problema desse sub-plot é que ele em nada interfere no andamento da trama principal, e a insistência do roteiro em mostrar as dficuldades de Bard e seus liderados é patética. E Bard, que deveria ser um líder humano carismático, sofre tanto pela má elaboração do roteiro quanto pela interpretação pouco inspirada de Evans.

hobbit1

Enquanto alguns personagens sem futuro ganham muito espaço de tela, o protagonista mencionado no título é deixado ainda mais de lado que no filme anterior. Não são poucos os momentos em que vemos Bilbo parado em meio a batalhas, sem saber o que fazer. Isso tem um claro objetivo de fazer humor, mas acaba deixando evidente que a relevância do personagem é realmente mínima neste capítulo final. Assim, o seu desenvolvimento é bastante prejudicado e ele quase se torna irrelevante para o desenrolar da trama. O que é inconsistente, já que Uma Jornada Inesperada é quase todo centrado na figura de Bilbo.

Outra inconsistência aparente é o súbito foco em batalhas. Peter Jackson gosta de filmar o épico – até quando não é necessário, como no drama espiritual Um Olhar do Paraíso -, e isso é algo que ele faz como poucos. O avanço da tecnologia desde o último Senhor dos Anéis possibilitou a elaboração de batalhas ainda maiores e mais complexas. Acompanhando a direção de Jackson temos a fotografia de Andrew Lesnie – que também trabalhou em todos os outros filmes da Terra Média – dando a luz adequada para que as cenas de ação sejam apreciadas da melhor maneira possível.

hobbit32

E com o fraco desenvolvimento dos personagens, o que sobra são as batalhas mesmo – aliás, creio que “guerra” seja a palavra mais falada pelos personagens no filme. O aumento de escala aliado à técnica de zoom aplicada por Jackson colabora para uma grande imersão nessas cenas. Todos os personagens importantes têm seus grandes momentos: Legolas com sua mira impecável, Thorin lutando com toda a sua raiva, Gandalf (Ian McKellen) sendo sábio, Tauriel lutando melhor que muitos homens, etc.

Quando eu assisti a O Retorno do Rei pela primeira vez, fiquei com aquela sensação de “quero mais”. A trilogia original é muito bem feita e bem acabada, um verdadeiro marco na história do Cinema. O mesmo, infelizmente, não pode ser dito sobre a trilogia Hobbit. Com o terceiro filme concluído, a saga me parece cansada, exaurida e louca para ir embora logo. O melhor agora é deixar a Terra Média e seus personagens longe da tela grande, dentro das ricos livros de onde vieram.

Anúncios

Uma ideia sobre “O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos | Quando a inconsistência vira regra

  1. Pingback: E agora, Peter Jackson? Já existem DUAS versões reduzidas da Trilogia Hobbit | Mente Sem Fio

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s