O Mercado de Notícias | Quando a pauta é o próprio jornalismo

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Em determinado momento de O Mercado de Notícias, os entrevistados falam sobre os “sem mídia”: grupos de pessoas que, por uma razão ou por outra, dificilmente encontram espaço na mídia tradicional. E entre esses grupos está a figura do próprio jornalista, profissional responsável por ir atrás dos fatos e entregar as notícias à população – é raríssimo ver o jornalismo sendo debatido nas páginas dos meios de comunicação. O debate acontece, claro, mas fica restrito a conversas rápidas nas redações ou como assunto na mesa de bar. O que Jorge Furtado faz aqui, neste seu primeiro documentário em longa-metragem, é se apropriar dessa e de outras questões que cercam o trabalho do jornalista e colocá-las num empolgante debate sobre a profissão e sobre o papel dela na sociedade.

O documentário é composto de depoimentos de jornalistas atuantes na área, como Geneton Moraes Neto, Janio de Freitas, Maurício Dias, Paulo Moreira Leite e Renata Lo Prete. E para escapar do tradicional estilo talking head – quando o documentário é composto apenas por pessoas debatendo determinado assunto – aqui Furtado intercala os depoimentos com uma encenação da peça de teatro que dá nome ao filme, criada pelo dramaturgo inglês Ben Jonson em 1625. Esse esquema, por si só, garante uma experiência cinematográfica interessante. Aliado ao talento de Furtado e sua equipe, O Mercado de Notícias se torna essencial para qualquer pessoa que demonstre o mínimo interesse pelo funcionamento dos veículos de comunicação no Brasil.

A peça acompanha a história do jovem Pila Júnior, que ao saber da morte de seu pai, vai procurar maneiras de gastar sua recém-adquirida herança. Entre compras roupas de luxo e ir a festas, ele descobre o novo (e lucrativo) negócio das agências de notícias. Essa é a maneira que Furtado encontrou para dizer que certos vícios permeiam a esfera midiática desde os seus primórdios. A busca pelo sensacionalismo, pela manchete mais chamativa, pela notícia que venda mais (mesmo não sendo 100% verdade). Está tudo lá.

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Um dos casos abordados em detalhes no filme é o do “Picasso do INSS”. Nessa história, veiculada em 2004 na Folha de S. Paulo, foi dito que um quadro original de Picasso se encontrava no escritório do INSS em São Paulo. O quadro ainda virou notícia um ano depois, quando o escritório sofreu um incêndio e o quadro  valioso foi resgatado. Anos se passaram e o jornal não emitiu sequer uma nota. O erro só foi corrigido neste ano, dez anos depois da notícia ter sido publicada, depois que Furtado foi até o museu onde a obra original se encontrava e comprovou que se trava de uma cópia de apenas 20 dólares.

Todas as intenções dos jornais são exploradas e debatidas com propriedade pelos entrevistados. E Furtado faz questão de agir de maneira oposta aos veículos de comunicação que critica. Logo no início vemos a equipe de produção do filme debatendo as ideias sobre como levar a produção à frente, e Furtado deixa claro que essa será uma experiência nova para ele, que construiu a carreira em cima de longa metragens de ficção. Nas cenas do teatro, por exemplo, é comum ver aparelhos de produção por trás dos personagens. Isso traz uma só mensagem: transparência. Enquanto determinadas publicações lutam para mascarar suas reais intenções, Furtado resolve assumir uma posição própria do início ao fim, sem nunca se esconder atrás do muro da imparcialidade.

No momento em que o jornalismo vive um momento de crise, tanto na profissão quanto no seu papel na sociedade, o documentário de Jorge Furtado chega para jogar uma luz sobre o assunto e trazer o (necessário) debate à tona. Como resultado, O Mercado de Notícias não é apenas um bom documentário, mas também uma boa reflexão sobre o atual momento do jornalismo brasileiro.

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