Lulu, o aplicativo polêmico da vez + O falso Tubby

lulu

O Lulu é um aplicativo exclusivamente feminino. Conectado ao Facebook, ele oferece às mulheres a chance de avaliar homens com notas de zero a dez, além de hashtags que resumem os pontos negativos e positivos dos rapazes, como #AmigodaMãe, #CarrodoAno, #PrefereoVideogame, #LimpaACasa, entre tantas outras. É óbvio que algo assim levantaria discussões e causaria problemas. Questões como feminismo, machismo e privacidade foram logo trazidas à tona.

Não é a primeira vez que um app levanta polêmicas e eu aposto a minha coleção de filmes que não será a última. Lembra do Bang With Friends? O aplicativo que pretendia facilitar os encontros sexuais entre amigos do Facebook foi assunto de rodas de conversa dentro e fora da rede. Hoje, está esquecido, ninguém nem lembra mais do pobre. Por isso, vou adiantar logo como vai acabar essa história toda: daqui a alguns meses quase ninguém vai se lembrar do Lulu, e ele vai ser tão dispensável para as nossas vidas como sempre foi.

Mas, há algo interessante rolando no ar que está fazendo valer a pena essa super-exposição que o aplicativo vem tendo em solo nacional. Comportamentos expostos na rede mostram o quanto podemos ser explosivos e irracionais na infinita e sem sentido guerra dos sexos. Comportamentos que lembram, olha só, o de crianças de desenhos animados.

O brasileiro e as redes sociais

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Sabe aquela criança que, quando entra numa loja de brinquedos, não sabe para onde vai no meio de tantas opções? Assim é o brasileiro com as redes sociais. Ele não escolhe uma ou duas, ele tem que estar em TODAS. Nesse quadro, qualquer app levemente diferente faz sucesso num piscar de olhos. Tanto é que nem a própria criadora do Lulu, Alexandra Chong, esperava uma repercussão tão grande no País. Em entrevista ao UOL, ela disse que as brasileiras acessam o aplicativo cerca de nove vezes ao dia, quantidade maior que nos Estados Unidos. E você aí achando Candy Crush perigoso.

A atenção exagerada que temos pelas redes sociais reflete em como as nossas mídias abordam o assunto. Os Estados Unidos também são um país que utiliza bastante as redes sociais, mas com moderação e sem tanto vício. Uma prova disso é a fraca repercussão que o Lulu tem por lá. No site do The New York Times há apenas um artigo falando sobre o app. Em contrapartida, no Globo.com são dezoito páginas com notícias sobre o Lulu. Acho que deu pra perceber a diferença. Se o brasileiro não fosse tão obcecado com redes sociais, o Lulu não teria tanta repercussão, e por consequência não teria tanta mídia, e assim não causaria essa polêmica toda.

A objetificação do ser humano

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As notas são uma eterna discussão de quem trabalha com crítica cultural. Como escolher a nota ideal para um filme? Quais fatores pesam mais, e quais pesam menos? A maioria dos sites atribue uma nota, mas eu pulei fora. É impossível resumir tudo o que a pessoa viu num filme numa escala de zero a dez ou em determinado número de estrelas. Então você já deve imaginar qual é a minha opinião ao ver pessoas fazendo isso com outras pessoas.

O mundo já está objetificado demais, pessoal. Vemos isso em filmes, letras de música e até em conversas do tipo “peguei tantas”, “fiquei com tantos”, e por aí vai. Um aplicativo que estimule essa cultura era pra ser imediatamente descartado desde a sua concepção. Não estou dizendo que quero ver o aplicativo sendo proibido ou algo assim, mas acredito que ele seja fruto de uma imensa falta de sensibilidade – e é trágico ver que ele ganha cada dia mais adesão. Objetificar seres humanos é um atentado à nossa própria espécie.

A “vingança” feminina

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Um dos primeiros textos que apareceram no meu Facebook sobre o Lulu era de uma mulher em seus vinte e poucos anos justificando o uso do aplicativo por conta dos séculos de desigualdade sofridos pela mulher. Ela também usou como desculpa o fato de não poder sair na rua sem receber olhares ou cantadas. Ela disse não querer mais sofrer com isso, mas acha justo que mulheres utilizem o app para avaliar homens. Hã, como assim? O número de curtidas e compartilhamentos que a postagem recebeu me fez acreditar que a jovem não estava sozinha.

É estranho observar que há uma parcela da população feminina que recrimina o que os homens fazem, mas querem fazer exatamente a mesma coisa. Isso não é igualdade, pessoal. Não é através de um novo erro que se conserta um problema antigo. E lembrem daquela regrinha básica da vida: não faça com os outros o que não quer que façam com você.

 O oportunismo brasileiro

gananciaPodemos dizer que o Lulu é um sucesso. O app chegou a ficar em primeiro lugar na App Store brasileira, além de ter ficado em posição de destaque no Google Play. Mas ele tem um pequeno problema – ainda não dá dinheiro. Desde que foi criado, o Lulu ainda não rendeu um centavo sequer à sua criadora. Toda a grana que os desenvolvedores do aplicativo têm vem de investidores.

(Rápido parênteses: é normal que startups de tecnologia não dêem lucro logo no começo. Os ganhos geralmente só vem mais tarde, quando o negócio está bem estabelecido ou quando a empresa é comprada por outra. O Instagram, por exemplo, foi criado em 2010 e só vai começar a dar lucro no ano que vem.)

Mas aqui no Brasil a turma não perde tempo e já surgiu gente criando negócio pra tirar uma grana em cima do aplicativo. O “empreendedor” Flavio Estevan viu a oportunidade quando percebeu que muitos homens estavam preocupados com a avaliação deles no app, e assim criou o LuluFake, site que vende avaliações positivas no Lulu. De acordo com ele em entrevista ao G1, nas primeiras 24 horas o serviço vendeu cerca de mil avaliações positivas. MIL. Que tipo de pessoa compra isso?

A meu ver, apenas homens tão fúteis que só esperam atrair a atenção de mulheres fúteis o suficiente a ponto de escolher futuros parceiros com base num aplicativo que funciona a base de novas. Um poço de futilidade, perda de tempo e dinheiro.

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E com o texto quase pronto, cai a bomba: o Tubby era fake. Tudo não passava de uma trollagem arquitetada pelo blogueiro Mauricio Sid, do Não Salvo, e mais alguns amigos. A bomba caiu, e a internet explodiu.

tubby

Nesses tempos de internet, é impressionante como tem gente que acredita nas coisas sem nem pensar duas vezes. Vemos isso constantemente quando uma imagem viraliza no Facebook com a legenda errada, ou então um vídeo de protesto que na verdade é de meses ou anos atrás. Dessa vez, a pegadinha pegou muita gente e gerou uma repercussão enorme.

 A brincadeira acabou na noite de ontem, quando foi divulgado no site do aplicativo um vídeo onde um empresário coreano fala sobre o lançamento. Ao ativar as legendas de tradução do YouTube, a verdadeira intenção das pessoas por trás do app foi revelada: tudo não passava de uma “trollada” para ensinar que toda essa história de avaliar pessoas é bobagem. A mesma mensagem que transmiti nos 12 primeiros parágrafos desse texto. Uma mensagem super válida, e que precisa ser dita, dita de novo, e espalhada para o maior número possível de internautas.

Como o assunto ainda é muito recente, está sendo interessante acompanhar a reação das pessoas sobre a revelação. Vejamos por exemplo essa moça do Twitter, que se identifica apenas como “lê”:

— lê ☮ (@eeiLee_) 6 dezembro 2013

Não sei onde ela viu a notícia (ou quem falou pra ela), mas por alguma razão louca do destino ela acha que o app foi “proibido no Brasil”. E comemora, achando lindo que as mulheres irão poder continuar avaliando os homens mas achando errado se o mesmo fosse feito com elas. Foi o que eu disse lá em cima, sobre a “vingança” sem sentindo que algumas mulheres sentem.

Outro comentário interessante surgiu no Facebook da Folha de S. Paulo, na postagem que divulgava o caráter fake do aplicativo:

tubby fb

Para Amanda, os criadores do aplicativo desistiram da ideia. Ela acredita que um grupo de pessoas investiu muito dinheiro e tempo na criação de um aplicativo que, de última hora, foi cancelado por medo da dimensão que a coisa tomou. Ela simplesmente ativou o seu campo de distorção da realidade e se recusa a aceitar que tudo não passava de uma brincadeira com uma mensagem significativa por trás.

Essa outra declaração, também tirada do Facebook, resume a indignação masculina quando a verdade foi revelada:

tubby fb 2

O comentário do jovem Icaro define bem a reação sofrida pelos homens que esperavam encontrar no aplicativo uma chance de se vingar das mulheres pelo uso do Lulu. De novo, a vingança em pauta – dessa vez pelo lado dos homens. Ele acha errado o que as mulheres fazem no Lulu, mas acharia certíssimo se pudesse fazer isso no Tubby. É o velho “faça o que digo, não faça o que eu faço”.

Bom, agora o recado está dado. Nessa década em que estamos, o Brasil está experimentando a alvorada da internet para todos. Se antes estar conectado à rede era um luxo para poucos, hoje isso é cada vez mais lugar-comum. O problema é que muitos ainda não sabem o que fazer com esse poder recém-adquirido.

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