Orquestra Sinfônica e Lenine – A mistura da música no Dona Lindu

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Estou gostando de ver como o bairro de Boa Viagem está, aos poucos, ganhando ares de pólo cultural. Localizado na Zona Sul do Recife, o bairro historicamente é excluído de grandes eventos musicais – os moradores sempre tinham que se deslocar até o centro da cidade (ou até a Zona Norte!) para apreciar apresentações. Mas essa realidade vem mudando aos poucos, e isso é uma ótima notícia. A cultura, esse bem imaterial tão valioso para nós seres humanos, não pode ficar centralizada – quanto mais espalhada, variada e apreciada, melhor.

A verdade é que, fora a praia e o shopping, Boa Viagem não tem nada de muito atrativo. É um bairro tradicionalmente residencial, recheado de prédios e grandes muros de concreto. O que está causando essa mudança gradual é o Parque Dona Lindu, que já não é mais apenas um parque, sendo palco de shows de qualidade (como o de Vanessa da Mata e, mais recentemente, Siba), peças de teatro e apresentações circenses. Mas a grande prova de que sim, Boa Viagem também é cultura, aconteceu no último domingo. A apresentação da Orquestra Sinfônica Brasileira com participação especial de Lenine bateu o recorde de público do local, com 20 mil pessoas presentes. Eu estava no meio desse povo todo, e conto agora pra você como foi por lá.

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Primeiramente, devo bater de novo na tecla do atraso. Durante toda a divulgação do espetáculo foi dito que tudo começaria pontualmente às 17:30. Conhecendo a minha cidade, saí de casa de 17:50. Cheguei no Dona Lindu pouco antes das seis de noite e… Nada de começar. O local estava lotado, as ruas ao redor estavam engarrafadas (sorte que fui a pé). Em certa hora, alguém responsável pelo evento subiu ao palco para dizer que estavam aguardando o sinal nacional, pois espetáculo seria transmitido ao vivo pela TV Cultura. Oras, se a TV Cultura sabia do horário de início, por que o atraso? Eu pensava que essa história das emissoras controlando o início dos eventos só acontecia do futebol, mas pelo visto estava enganado.

Pouco mais de meia hora de atraso depois, a Orquestra Sinfônica Brasileira começou a tocar sob a batuta do maestro Leandro Carvalho. Ele, que viveu no Recife há 15 anos, estava visivelmente entusiasmado com a apresentação na praia de Boa Viagem, local onde ele costumava caminhar na década de 90. No repertório da orquestra entraram as músicas Rousslan et Ludmila, Lamento e Dança Brasileira e O Pássaro de Fogo. Cada composição era devidamente contextualizada pelo próprio maestro antes da execução. Lamento e Dança Brasileira foi recebida com um entusiasmo maior justamente por ter sido criado pelo pernambucano Clóvis Pereira que estava na plateia e cujo filho faz parte da OSB.

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Essa contextualização se fez necessária pois grande parte do público desconhecia música clássica. Alías, esse desconhecimento levou a alguns momentos inusitados: devido ao grande número de pessoas, o público que ficou mais afastado do palco não ouvia quando o som da orquestra estava baixo, o que frequentemente levava as pessoas a baterem palmas muito antes do fim das músicas. Outro momento que vale citar foi durante a execução de O Pássaro de Fogo. A obra possui um longo trecho bastante calmo que de sobressalto se torna agitado. O problema é que ninguém sabia disso, levando muitos a tomarem um susto!

 Há uma razão pela qual quase a totalidade dos concertos de música clássicas possuem são realizados em lugares fechados e possuem altos preços. A apreciação desse tipo de música exige muito foco e silêncio, algo bastante difícil de se obter no ambiente aberto e de cara com a praia como o Parque Dona Lindu. Já era de se esperar que alguns exemplos de falta de educação aparecessem, e acredite em mim quando digo que não tardaram. Logo na primeira música, um jovem claramente embriagado não cansava de gritar pela amada perdida. “LUCIANAAAA, CADÊ VOCÊ MEU AMOR?”, dizia o ébrio rapaz. Mas o grande problema mesmo foi o cigarro. O pior é que não se pode fazer nada – é um parque público, afinal. Falta apenas uma pequena dose de bom senso nos fumantes, algo que lhes diga que talvez, entre aquelas 20 mil pessoas, possas ter gente que não gosta de levar borrifadas de fumaça enquanto tenta assistir ao show.

A chegada de Lenine

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Acredito que todos tenham gostado da apresentação da Orquestra Sinfônica Brasileira. Foi uma chance rara de conferir um estilo de música considerado erudito sendo consumido por tanta gente. Mas o fato era que a maioria das pessoas presentes está lá pela participação especial de Lenine, que subiu ao palco às 19 horas. Com sua guitarra e apoiado pela OSB, o pernambucano cantou Gandaia das Ondas/Pedra e Areia, De Onde Vem a Canção, O Último Pôr do Sol, Miragem do Porto, Se Não For Amor Eu Segue, Jack Soul Brasileiro, Leão do Norte e Chão. Essas canções (com exceção das presentes em Chão, álbum mais novo do cantor) são velhas conhecidas do público, até mesmo por quem não é muito chegado a Carnaval. A participação da OSB na performance dessas músicas deu um novo gás a essas músicas que, querendo ou não, cansam depois de serem executadas da mesma forma Carnaval após Carnaval.

O comportamento da plateia mudou completamente quando Lenine começou a tocar. Se antes as pessoas ficavam quietas, outras até mesmo distraídas, com Lenine as pessoas dançavam e pulavam – a situação virou um verdadeiro carnaval fora de época especialmente quando os primeiros versos de Leão do Norte foram ouvidos. Em contrapartida, a presença de Lenine fez aumentar fez aumentar o número de irritantes celulares e tablets ao alto tentando filmar o show. Em determinado momento um ser que tentava filmar Lenine com seu celular na vertical (!!!) posicionou o aparelho bem no meu campo de visão. Mas isso é assunto pra outro texto.

Com a saída de Lenine, a orquestra tocou um pout-pourri com várias músicas de frevo, acompanhada de fogos de artifício. Foi um belo encerramento para um belo espetáculo. Na saída, acreditem, peguei até fila para atravessar uma ponte a pé. Mas valeu a pena!

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