Crítica | Círculo de Fogo

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Em 1997, James Cameron mostrou seu Titanic para o mundo. Um filme recheado de clichês, estereótipos e história bastante previsível, mas que ainda assim se provou uma experiência cinematográfica sólida devido ao empenho do seu realizador. Em muitos sentidos, Círculo de Fogo é o Titanic de Guillermo del Toro.

O longa-metragem começa tropeçando, como se ainda estivesse tentando desajeitadamente controlar um dos seus enormes robôs. Pra quê dois prólogos? O primeiro deles, que conta até com narração do protagonista, e serve apenas para explicitar os elementos da história que del Toro e seu colega roteirista Travis Beacham não conseguiram encaixar organicamente no enredo – ou seja, trata-se de um simples remendo. Já o segundo prólogo segue um mantra que vem sendo bastante seguido nos filmes de ação dos últimos tempos: mostrar uma grande cena de ação logo no início para “nocautear” o telespectador com fortes doses de adrenalina.

Após o início pouco inspirado, Círculo de Fogo pega o caminho certo. Guillermo del Toro sabe que não é possível criar um história envolvente quando se tem um filme envolvendo batalhas entre robôs e monstros, portanto ele deixa para criar evolvimento através do espetáculo, exatamente nas sequências em que esses gigantes se digladiam na tela. Essas batalhas, aliás, são de encher os olhos até mesmo dos mais acostumados com efeitos visuais de última geração. É claro que del Toro faz uso de certos truques – as batalhas só ocorrem à noite e em tempo chuvoso – mas mesmo com eles o diretor mexicano consegue impressionar, como no momento em que Gipsy Danger, um dos robôs, dá um soco na própria mão e a água dos braços se espalha bruscamente. Coisa linda de se ver.

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Os diálogos do filme foram bem trabalhados para fortalecer a mitologia daquele mundo com palavras, já que temos apenas alguns vislumbres de como funciona a humanidade daquele futuro apresentado. Um bom exemplo disso é a denominação dos robôs gitantes, chamados de jaegers, que significa “caçador” em alemão. Por qual razão todos os robôs do filme, fabricados em diferentes países e com outras tecnologias, possuem uma denominação alemã (ainda mais quando não tem nenhum robô alemão no filme)? Em detalhes como esse é perceptível o cuidado que del Toro e Beacham tiveram com grande parte do roteiro.

Círculo de Fogo é, antes de qualquer coisa, uma carta de amor de Guillermo del Toro aos tokusatsus (gênero japonês que envolve lutas com criaturas gigantes, como Godzilla), e ele sabe dos limites que isso impõe. Aqui não há tramas complexas, personagens multifacetados ou dramas políticos, pois o realizador teve a noção de que o objetivo aqui é o Cinema como entretenimento puro e de qualidade. E isto não é sinônimo de imaturidade – afinal, estamos falando do sujeito que fez O Labirinto do Fauno! O filme faz um uso bastante sutil do humor, nunca chegando aos patamares quase pré-adolescentes de filmes como Transformers ou G. I. Joe.

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Este é o sexto parágrafo desta crítica e ainda não mencionei nenhum personagem, e sendo sincero, nem seria necessário. O verdadeiro brilho do filme, o que fez del Toro seguir adiante com o projeto, foram os monstros alienígenas e os robôs. Mas vamos lá, começando por Raleigh Becket, o protagonista. Ele é interpretado por Charlie Hunnam, mas poderia ter sido por qualquer outro ator, já que seus dramas pessoais são insípidos e servem apenas para fazer a história andar. O mesmo vale para quase todos os personagens, sendo o comandante Stacker Pentecost (Idris Elba) o único a cativar o público, mais por conta da atuação de Elba que por sua história.

Quando eu era pequeno, gostava de acompanhar as aventuras dos Power Rangers contra os monstros que sempre queriam destruir tudo, e durante a batalha eventualmente o monstro crescia e os Rangers tinham que usar os Megazords, seus próprios robôs gigantes. Anos depois, cá estou eu, maravilhado com o espetáculo visual que é Círculo de Fogo. Quem diria que depois de tanto tempo, batalhas entre monstros e robôs continuariam tão interessantes?

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